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Economia


19/03/2012

Desindustrialização afeta mais as pequenas

Leone Farias
Soraia Abreu Pedrozo

 

 


As indústrias do Grande ABC têm sofrido para manter seu faturamento, produção e gerar empregos. Para se ter ideia, o setor perdeu 49.620 trabalhadores com registro em carteira, na região, de 1989 a 2009. E, de lá para cá, com a crise internacional, esse movimento só se acentuou. As fabricantes até esboçaram recuperação em 2010, quando a economia brasileira reagiu e resgatou parte das demissões - com salários menores -, porém, o dólar na casa de R$ 1,60 durante quase todo o ano passado, e a consequente enxurrada de importações, inviabilizaram a retomada do segmento. Com real valorizado, elevada carga tributária e juros altos (a taxa básica só começou a cair em setembro, após atingir 12,5% ao ano) a concorrência com itens trazidos do Exterior, particularmente os chineses, ficou impraticável. Além disso, os preços dos produtos nacionais lá fora ficaram mais caros.

Quem mais sofre com esse cenário de desindustrialização são as micro e pequenas empresas, especialmente aquelas que atuam no setor automotivo. Com os pedidos congelados, elas começaram a acumular dívidas, a não conseguir empréstimos e a ter de demitir. Sem ter para quem vender, já que muitas companhias, incluindo sistemistas (como são chamados os fornecedores diretos das grandes empresas) e montadoras, passaram a aderir às peças importadas, elas estão, aos poucos, sucumbindo.

Prova disso são os números do Ciesp (Centro das Indústrias do Estado de São Paulo) de Diadema, município que concentra várias empresas de autopeças de micro e pequeno porte. Em 2008, o total de associados somava 412 companhias. Hoje, são 350, 15% a menos. "A quantidade  que está debandando é impressionante. Muitas porque realmente estão fechando as portas, outras porque estão mudando de ramo e, outras, porque saíram da região", afirma o diretor do Ciesp de Diadema, Donizete Duarte da Silva. "A China destruiu o conceito de fábrica no Brasil. Estamos à beira de uma recessão."

O diretor do Ciesp de Santo André, Emanuel Teixeira, conta que, embora ainda não disponha de indicadores, a inadimplência entre parte dos 165 associados começa a dar os primeiros passos. "Alguns pequenos empresários não conseguem nem dispor de R$ 90 a R$ 100 da mensalidade do associado. Por enquanto, mesmo que percamos integrantes, acabamos conseguindo outros, por conta da vantagem de tratarmos os assuntos de forma conjunta." Só na semana passada, cinco empresas se desligaram da entidade.

No Ciesp de São Bernardo, de acordo com o diretor Hitoshi Hyodo, os associados também estão preocupados com o cenário, porém, o número de associados se manteve porque, dos 180, a maioria são montadoras e sistemistas.

 ACELERAÇÃO

Para se ter ideia da velocidade da crise pela qual atravessa a indústria da região, em somente um ano, até fevereiro, foram perdidos 4.050 postos de trabalho.

Outro fator que piora esse quadro é, de acordo com o presidente do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, Sérgio Nobre, o fato de as pequenas indústrias não terem como vender no Exterior e nem inserir, em seus processos, a participação de empresas chinesas. As médias e grandes, para se manter, desenvolvem projetos e os enviam ao país asiático para que sejam executados por lá e trazidos ao Brasil. "O maior pesadelo é virarmos o México, que apenas monta o que é fabricado nos Estados Unidos", diz. "Além disso, no futuro não haverá espaço para as empresas de pequeno porte. É preciso aglutiná-las em polos de autopeças a fim de fortalecê-las.

Cenário assusta pequenas indústrias

O cenário de desindustrialização, que tem feito encolher o volume de postos de trabalho nas pequenas fabricantes, leva empresários a temer pela própria sobrevivência dos negócios. "A continuar assim, vai levar à inviabilidade econômica e financeira", afirma o empresário Emanuel Teixeira, que tem metalúrgica dedicada à produção de molas e outros artefatos de arame para o setor automotivo.

Teixeira, que também é diretor da regional do Ciesp (Centro das Indústrias do Estado de São Paulo) de Santo André, conta que sua companhia, a Metalmech, tem buscado novos segmentos. "No setor automotivo, não vejo perspectivas para quem está na terceira ou quarta geração (ou seja, empresas que fornecem indiretamente para as montadoras, por meio do atendimento a outras indústrias de autopeças), a tendência é desaparecer", avalia. A fabricante contava com 65 funcionários há alguns anos e hoje está com 50.

A dificuldade é fazer frente às peças importadas, "sem contar os carros que já vem em CKD (em inglês veículos desmontados, em que só há o trabalho de juntar as peças no País)", diz Teixeira. Uma saída, segundo ele, é também trazer componentes do Exterior. No entanto, as pequenas empresas não têm estrutura para isso, observa o executivo.

Outra indústria que sofre com a forte concorrência com os chineses é a Uniwidia, de Mauá. Um de seus produtos, um tipo de anel de vedação de equipamentos, já chegou a representar 60% de seu faturamento, mas as vendas do item caíram mais de 40% nos últimos três anos.

Isso porque esse anel trazido da China entra no mercado nacional por preço até 70% mais em conta, cita a supervisora de vendas Eucélia Almeida Freitas. "Perdemos um contrato com empresa grande pela necessidade de repassarmos o custo da matéria-prima", acrescenta. Sua firma, que é uma cooperativa, também encolheu em número de trabalhadores. Cinco pessoas desistiram de ser cooperados. Hoje a companhia conta com 24.

ELETROELETRÔNICO

A dificuldade de concorrer com produtos chineses é geral e não apenas na área automotiva, assinala Claudio Barberini Júnior, que é empresário do ramo eletroeletrônico e diretor adjunto da regional do Ciesp de São Bernardo. Ele cita que, pela dificuldade de competição, fechou parceria com grupo do país asiático. "Desenvolvemos projeto de disjuntores, mas fica inviável fazer aqui (no Brasil) e faço na China", diz.

Sua empresa, a Alumbra, de São Bernardo, tem como carro-chefe interruptores, mercado em que a concorrência externa é menos acirrada. Porém, o executivo assinala que a tendência é aumentar o percentual de importação em seu mix de produtos. Atualmente, os itens vindos do Exterior correspondem a 20% do faturamento, mas a perspectiva é chegar a 30% em um ano.

E os empregos? "Provavelmente serão mantidos, mas não vamos aumentar", acrescenta Barberini. A fabricante já chegou a ter quadro com 450 funcionários. Atualmente são 380. As vendas seguem crescendo, mas há necessidade de manter custos competitivos. (Leone Farias)

Atividades deixam de existir na região

José Adail Santana, 57 anos, trabalhou em um ramo industrial que está quase no apagar das luzes no Brasil, a produção nacional de lâmpadas. Ele é ex-funcionário da Philips Iluminação, que tinha fábrica em Mauá e onde trabalhou por 22 anos. "Entrei em 1987, sai em 1988, voltei no ano seguinte e fiquei até o fechamento, em junho de 2010."

A empresa encerrou a atividade por causa dos custos pouco competitivos para se fabricar no País. Hoje, praticamente não há mais produção nacional do item. "A companhia tem fábricas no mundo inteiro e a lâmpada feita na Índia entrava no Brasil por R$ 0,30, com tudo incluído, impostos e frete, enquanto a feita aqui custava R$ 0,35", observa.

Apelidado de Zoinho, Santana comenta ainda que, quando ingressou na multinacional na região, eram 2.000 funcionários. Quando fechou, havia só 500 trabalhando. Ele sente saudades de seu tempo na fabricante. "Recebia um bom salário, tinha plano de previdência e o ônibus (fretado) passava na porta de casa. Com o que eu ganhava, consegui construir minha casinha."

A realidade do mercado de trabalho mudou. "Estamos sentido o sucateamento e o fechamento de fábricas e a perda de empregos por consequência", diz o presidente da CUT-SP, Adi dos Santos Lima. Nos últimos três meses, toda indústria brasileira cortou 195 mil vagas.

E, embora os salários da categoria tenham subido, o valor médio pago pelas fábricas se manteve nos últimos dez anos, destaca o presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de Santo André e Mauá, Cícero Firmino da Silva, o Martinha, em relação à sua base. "As empresas demitem os que ganham os salários mais altos e contratam pelo piso."

O enfraquecimento do setor industrial é "um desastre para a região", lamenta o presidente do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, Sérgio Nobre, ao sublinhar que algumas atividades, como a ferramentaria, vêm desaparecendo. "Estamos discutindo um programa com o governo para acrescentar a engenharia e a ferramentaria como exigências de conteúdo nacional nos carros (para alteração do programa de regime automotivo, que estabeleceu 65% de peças nacionais nos veículos)", antecipa Nobre.

 


Fonte: Diário do Grande ABC



 
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