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Empreendedorismo




Como erguer uma empresa do zero, duas vezes

Daniel Cardoso, especial para o iG


Os trajes e o entorno já não são os mesmos. Mas a ascensão social pouco fez para mudar a rotina de trabalho de Ingo Fischer. Aos 67 anos, o empresário ainda se diz orgulhoso de manter hábitos criados há 50 anos. Acorda cedo, por volta das 6 horas e, às 7h30, inicia uma vistoria completa na empresa que fundou e preside, a Irmãos Fischer.


É o que considera o segredo para manter saudável uma indústria que começou como uma acanhada oficina de bicicletas, em Brusque (SC), e se transformou em uma potencia regional, dona de fábricas de eletrodomésticos, equipamentos leves de construção civil e, claro, bicicletas -- ainda que, para isso, tenha sido forçada a renascer, após uma das maiores enchetes da história do estado. No ano passado, a Irmãos Fischer faturou mais de R$ 300 milhões.

 

A rotina atual vem dos tempos de fundação da empresa. Mas a ética do trabalho e a doutrina protestante típica das colônias germânicas do interior de Santa Catarina foram incutidas no empresário desde os primeiros anos de vida. Ingo nasceu em uma propriedade rural de Brusque, falava só alemão em casa e precisou dedicar muito tempo à lida no campo. Ajudava na lavoura, a cuidar das vacas leiteiras, suínos, aves e de outros animais que circulavam no pequeno sítio, de onde provinha o sustento da família.


O trabalho diário e pesado, no entanto, não o afastou da educação, ainda que, sem recursos para pagar as aulas, o patriarca, Arthur Fischer, tivesse que picar lenha para abastecer a cozinha das irmãs mantenedoras do colégio em que estudavam os filhos. “Chegados aos 14 anos, todos nós éramos encaminhados para um emprego na cidade, o que muitas vezes cumpríamos ao lado dos afazeres de casa e do campo, ou mesmo frequentando a escola à noite”, lembra Ingo, referindo-se também aos oito irmãos.


Nessa idade, o garoto parecia fadado a seguir o mesmo caminho dos adolescentes de Brusque. Foi contratado por uma grande indústria têxtil da região como auxiliar carregador de espulas (pequenos cones onde são enrolados os fios usados em tecelagens), cargo que preparava os mais novos para o posto de operários. Mas Ingo logo percebeu que não queria essa vida, ansiava por algo a mais. Largou o emprego, em apenas três meses, e foi trabalhar em uma oficina de bicicletas, paixão que surgira pouco antes, quando ganhou uma do pai para ir trabalhar na fábrica.

Ao aprender o novo oficio, surgiu a veia empreendedora que foi colocada em prática poucos anos depois. “Aluguei uma sala num prédio antigo perto do centro, munido apenas de um compressor de ar, um aparelho de regular raios da roda, uma morsa e um conjunto de chaves. Era abril de 1961, eu tinha apenas 17 anos”, conta.


Primeiro cliente


O primeiro cliente demorou três dias para aparecer. Mas veio com uma bicicleta do mesmo modelo da que Ingo tinha e com o qual estava familiarizado. “Era uma Dürrkopp, como a minha. Foi a chance de mostrar tudo o que eu sabia fazer, o meu teste de qualidade”, diz.


Em pouco tempo, a propaganda boca a boca se espalhou e a oficina recém-inaugurada se tornou “a mais procurada de Brusque”. Um dos truques para o sucesso era pintar nas bicicletas o brasão do clube de futebol preferido pelo cliente.


Nessa época, os irmãos e alguns amigos começaram a ajudar na oficina nas horas vagas. Um dos irmãos, o Nivert, que sabia fabricar calhas e pias de aço abandonou o emprego, em 1966, e se associou a Ingo. Foi o surgimento da empresa Irmãos Fischer Ltda. Juntos puderam estender os serviços para consertos de vários tipos de eletrodomésticos, como fornos elétricos e até mesmo fabricar produtos, como pias de inox e baldes.


“E enquanto crescia nosso movimento, íamos nos aprofundando na pesquisa e no conhecimento técnico, ao mesmo tempo adquirindo gradativamente equipamento maior e mais apropriado”, afirma Ingo.

Apesar do começo difícil, pela falta de capital de giro, bastou somente um ano para que a dupla produzisse o próprio forno elétrico – que até hoje é o carro chefe da empresa. A aceitação foi imediata. A necessidade de dar conta da demanda, no entanto, levou os Fischer a um obstáculo inerente aos empreendedores: a falta de crédito.


Para comprar o primeiro galpão, de 795 metros quadrados, solicitaram um financiamento junto ao Fundo de Desenvolvimento de Santa Catarina (Fundesc). Mas tiveram o pedido negado. O analista do fundo temia que os irmãos não pudessem honrar o empréstimo. Nessa hora, ser de uma cidade pequena voltou a virar uma grande vantagem. O gerente da agência local do Banco do Brasil soube da demanda e ofereceu um crédito de 12,5 milhões de cruzeiros, amortizados em cinco anos.


Graças à nova fábrica, os irmãos puderam atender uma demanda que explodiu logo em seguida. Preocupado com a higiene dos tablados de madeira usados pela indústria pesqueira de Itajaí para manipular pescados, o Departamento de Saúde Pública do Ministério da Agricultura local buscava um fornecedor de pias de inox. Os irmãos iniciaram o fornecimento em grande escala e acharam no mar um cliente ainda maior. Muitas empresas precisavam de máquinas para processamento de pescado e a Fischer desenvolveu esse maquinário não só para o estado, mas para todo o Brasil.


“Foi um verdadeiro salto no desenvolvimento, que nos levou a estender a produção também a máquinas para abatedouros de aves, suínos e bovinos, fornecendo-as a praticamente todos os grandes frigoríficos do país, de Rio Grande (no Rio Grande do Sul) até Manaus”, afirma Ingo.


A empresa entrou em uma espiral de intenso crescimento. Dedicou-se exclusivamente à fabricação de produtos em série e começou a adquirir várias indústrias à beira da falência, que produziam carrinhos de mão, betoneiras e até artigos em borracha. O parque fabril se expandiu. Os irmãos ainda compraram terrenos e galpões na vizinhança e construíram um pavilhão industrial com mais de 20 mil metros quadrados.


Com a forte expansão, veio também muita mão de obra. A empresa se estruturou. Organizou um setor de vendas, aumentando ainda mais o número de clientes. Já no final dos anos de 1970, abriu uma filial em São Paulo, que ainda é um importante apoio na distribuição dos produtos Fischer, e, em 1972, absorveu outros três irmãos, Edemar, Norival e Egon, encarregados dos setores de vendas, metal-mecânica e almoxarifado.


A euforia, porém, sofreu um revés violento. Em 1984, o Vale do Itajaí, região de Brusque, foi assolado por uma grande enchente. As águas atingiram em cheio a fábrica, causando perda de máquinas, instalações, estoque, matéria-prima e produtos. A Fischer ficou seriamente comprometida e o faturamento desabou. “Conhecemos então uma grande solidariedade, tanto por parte dos nossos colaboradores, quanto de fornecedores, de clientes e do próprio poder público estadual”, conta Ingo.


Foto: Divulgação 
Complexo de fábricas da Irmãos Fischer construído após a enchente de 1984.

As instituições financeiras, por exemplo, se sensibilizaram com a situação na cidade e adiaram os prazos de pagamento assumidos pela Fischer. Os clientes também participaram. Entenderam os atrasos e seguiram confiando na fábrica. Diante do quadro desolador da destruição, a decisão foi mudar a sede da empresa para um terreno mais elevado, protegido dos humores do Rio Itajaí-Açu. Foram construídos vários pavilhões e dada largada a novas linhas de produtos. A Fischer se reergueu após um ano.


Depois do flagelo, nem sequer uma das maiores crises econômicas da história abala o ânimo de Ingo. Enquanto a Europa faz as contas do prejuízo, as Irmãos Fischer prevê fechar 2011 com um crescimento de mais de 20%. Sucesso que espanta para longe qualquer plano de aposentadoria. Hoje, casado há 42 anos com Elfrida, pai de duas filhas e um filho, avô de dois netos e cinco netas, Ingo afirma que, com saúde, seguirá levantando todos os dias às 6 horas para vistoriar a fábrica.

 

Fonte: IG

 


 
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