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Empreendedorismo




Vida Fértil


Cléia Schmitz


 O empresário Fernando Penteado Cardoso nunca teve dúvidas do que queria ser na vida. Neto de fazendeiros paulistas, se apaixonou desde criança pelo ofício de agrônomo. Só não sabia que a profissão o levaria a fundar, em 1947, a marca de fertilizantes mais lembrada do Brasil, a Manah, famosa pelo slogan “Com Manah, adubando dá”. No ano 2000, o controle acionário da empresa foi vendido para o Grupo Bunge. Se alguém pensou que, finalmente, aos 85 anos, Cardoso se aposentaria, errou. Um ano depois ele já estava à frente da Fundação Agricultura Sustentável (Agrisus), criada por ele mesmo com o propósito de continuar a fazer o que fez praticamente a vida inteira: transformar solos pobres em terras agricultáveis.

“Legalmente já estou aposentado, mas mentalmente estou em plena atividade. Enquanto eu tiver gás, vou continuar trabalhando”, afirma Cardoso, prestes a completar 95 anos. A Agrisus apoia e financia estudos e pesquisas que têm como meta melhorar e conservar a fertilidade do solo. Para o empresário, é uma maneira de retribuir o que ele recebeu dos agricultores durante as quatro décadas em que comandou a Manah. “A Agrisus é a continuidade de um trabalho que já fazíamos na Manah. É uma vontade que eu sempre tive de devolver um pouquinho do que recebi, desse mundo de realizações que a agricultura me proporcionou”, afirma Cardoso.

O curioso é que a criação da Manah se deu um tanto por acaso. Em 1941, o jovem Cardoso tinha acabado de renunciar a um emprego público com o propósito de voltar à fazenda da família para ajudar o pai na administração dos negócios. O mundo estava em guerra, e o agrônomo admite: “Tive medo de ser recrutado para a guerra”. O Brasil sofria os efeitos diretos do conflito. Faltavam produtos como gasolina, enquanto cereais apodreciam nos armazéns com a interrupção do comércio internacional. “Queríamos comprar fertilizantes e não tinha. Então passamos a comprar cinzas muito ricas porque naquela época queimava-se cereal. Eu passei a me dedicar ao trabalho de misturar essas cinzas para fazer adubo. No início era só para usar na fazenda, mas aos poucos começamos a vender para os vizinhos”, conta Cardoso.

Na época, o empresário não tinha ideia de que estava plantando a semente do que viria a ser a Manah. Mesmo com o fim da guerra, ele continuou produzindo fertilizantes nas horas vagas. Mas, em 1950, o negócio já tinha tomado uma dimensão tão grande que o empresário se mudou para São Paulo, onde fincou a sede da empresa, em sociedade com um amigo do colégio, Eduardo Lacerda de Camargo. “Eu o conheci no Ginásio São Luiz e, casualmente, cursamos juntos agronomia na Esalq (Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz, em Piracicaba/SP). Mesmo depois de formados, continuamos a nos corresponder e quando decidi me dedicar só à Manah me dei conta de que precisaria de alguém com pendor para a área de vendas. Como ele vendia máquinas agrícolas, achei que seria o sócio ideal.”

E foi. A sociedade se manteve firme até a aposentadoria do colega Camargo, que se manteve acionista da empresa até a venda para a Bunge. Uma venda sem traumas. Na avaliação de Cardoso, uma consequência da evolução do segmento de fertilizantes no Brasil. No final dos anos 1990, os grandes fabricantes de adubos passaram a comprar e exportar a produção de seus maiores clientes, amarrando todos os negócios. Ao buscar associação com um trade da área de produção agrícola, a Manah acabou recebendo uma proposta de compra. “Em vez de um sócio, encontramos um comprador”, resume Cardoso. Quando o controle acionário da Manah foi vendido, a empresa era a segunda maior indústria de fertilizantes do País em volume de produção. O número de colaboradores superava 2 mil, distribuídos por 13 fábricas localizadas em diferentes estados do País.

Cardoso garante que não houve nenhum sentimento de perda, até mesmo porque, indiretamente, a administração da empresa continuou com sua família. O atual presidente da Bunge Fertilizantes é seu genro. “Aceitamos a venda como sendo uma adaptação à nova conjuntura”, afirma o empresário, que nunca teve medo de ousar. Foi assim quando largou o emprego público, em plena Segunda Guerra Mundial. Depois de três anos no cargo, foi enviado para uma especialização nos Estados Unidos. De volta ao Brasil, ficou frustrado com a falta de interesse pelo relatório que produziu a partir de seus estudos. “Eles não tomaram conhecimento da minha especialização, foi um desperdício terem me mandado para o exterior. Percebi que não teria muito nexo fazer carreira num emprego público.”

Quem conhece a história do estudante Fernando Cardoso entende melhor a decisão. Apaixonado pelos estudos, ele achava inconcebível trabalhar num lugar onde o conhecimento não era levado em conta. Na Esalq, ele recebeu a medalha Epitácio Pessoa como melhor aluno. Obteve média superior a nove, um desempenho raro até hoje na instituição. O empresário conta que todos os colegas tinham uma paixão muito grande pelos livros. “Ninguém estava lá por acaso, todos gostavam muito da agronomia. Foi uma época muito gratificante porque tínhamos grandes professores, homens extremamente dedicados à magistratura. Eles eram nossos amigos, vinham conversando conosco no bonde que levava à escola. Hoje, em plena era do automóvel, isso não existe mais”, lamenta.

Cardoso entrou na Esalq em 1933, logo após a Revolução Constitucionalista de 1932, movimento armado que pretendia derrubar o governo de Getúlio Vargas. O curioso é que um dos colegas de turma de Cardoso era Manoel Antônio Vargas, filho de Getúlio. “Estávamos ressentidos com o governo, Manoel poderia ter sido discriminado, mas ele soube nos cativar.” Em 1934, a turma de Cardoso comemorou o ingresso da Esalq na recém-criada Universidade de São Paulo (USP), motivo de orgulho para alunos e professores. Em 1936, concluiu o curso e dois anos depois, cheio de idealismo, abriu com outros amigos de faculdade, entre eles Camargo, o Escritório Técnico Agrícola. O objetivo era resolver os maiores problemas enfrentados pelos agricultores na época. “Foi um arroubo de agrônomo recém-formado”, avalia hoje.

O negócio durou apenas dois anos devido a “dificuldades administrativas”. Mas a empresa deixou duas importantes conquistas na avaliação do próprio Cardoso: a construção dos primeiros terraços de base larga para controle da erosão e a derrubada do cerrado para pastagem, uma atividade pouco comum na época. “Até então, o que se fazia era cultivar terras férteis. Nós começamos a tornar solos ruins em terra boa para plantar e criar gado. Foi uma glória”, afirma o empresário. Mas foi justamente a dificuldade de expandir as terras agricultáveis para o cerrado que levou o Escritório Agrícola à falência. As máquinas quebravam com muita frequência e os sócios começaram a perder dinheiro. Não houve outro jeito senão desistir do negócio. 

Polêmico

Em tempos de sustentabilidade ambiental, as declarações de Cardoso sobre a expansão do território agrícola podem soar como pouco preservacionista. Sem meias palavras, o empresário responde: “No dia em que os ecologistas não precisarem comer, eles podem transformar o País inteiro em mato. Enquanto isso, temos que ter terra para a agricultura e a pecuária. Na sombra, essas atividades não existem.” Polêmico, o agrônomo também afirma não ver problemas nos efeitos do aquecimento global. “A terra gosta de calor. Pode ser que algumas regiões sejam afetadas negativamente, mas na Islândia, por exemplo, podemos ter a expansão das áreas agrícolas”, argumenta.  

Em fevereiro passado, Cardoso recebeu da Esalq a Medalha Luiz de Queiroz 2009. Desde sua criação, em 1976, a honraria foi concedida a 10 personalidades marcantes para o desenvolvimento da agricultura. No discurso de entrega do prêmio, o professor, pesquisador e também engenheiro agrônomo Ondino Cleante Bataglia contou uma história curiosa. “Quando ninguém mais se interessava pelo superfosfato simples (SS), ele (Cardoso) criou o Fos Sol. Na verdade era o próprio SS pintado de amarelo. Mandou tingir todos os grânulos e vendeu como nunca”, destacou Bataglia. O empresário confirma a história. Preocupado com a concorrência de fertilizantes de multinacionais, decidiu provar que a diferença entre os produtos da Manah e os importados era só uma questão de marketing.

A paixão de Cardoso pela terra começou cedo. Aos quatro anos, ele ouvia “as prosas sobre o café”, acompanhando o pai nas cavalgadas pela fazenda da família durante as férias escolares. Aos sete, ganhou seu próprio cavalo, o Macaco, e ficava o dia inteiro atrás do vaqueiro e do administrador. Quando saía para explorar as terras, logo de manhã cedo, já pedia uma marmita com o propósito de não voltar para o almoço. Assim foi aprendendo e tomando o gosto pela agronomia. Até hoje mantém uma plantação de cana-de-açúcar em Mogi Mirim (SP) e uma fazenda onde cria bezerros para boi de corte. As principais leituras também continuam relativas à profissão. Curioso, Cardoso acompanha de perto todas as pesquisas com alimentos transgênicos. “É fantástico, ninguém sabe onde vamos chegar.”

Casado com Magdalena, com quem teve seis filhos – três mulheres e três homens (“dois agrônomos”, faz questão de frisar) –, Cardoso tem 20 netos e 21 bisnetos. “É uma aventura ter tantos descendentes assim”, diz orgulhoso. Para o empresário, sua vida foi marcada por muita lógica e inexpressivos erros. “É claro que errei, não sou o dono da verdade. Mas é porque havia sempre muita ousadia nas minhas ações. No entanto, tive uma sequência de trabalho persistente, objetivo e até certo ponto inteligente porque eu soube aproveitar as oportunidades que surgiram. Foi mais um caminho a seguir do que grandes batalhas a vencer”, resume. Para os empreendedores de hoje, ele deixa três conselhos: acredite no Brasil (“vai aos tropeços, mas é um grande país”), nunca pare de estudar e, principalmente, seja persistente. “Existem pessoas que fazem coisas interessantes da noite para o dia, mas são poucos privilegiados. O que nós podemos fazer para alcançar nossos objetivos é persistir.” 


Bússola  Empresarial

O que fazer:

- Investir em uma atividade com a qual se identifica e ter prazer em trabalhar;
- Estudar e pesquisar sempre para oferecer aos clientes o melhor produto;
- Persistir para alcançar os objetivos traçados profissionalmente.


O que não fazer:

- Ignorar as transformações na conjuntura dos negócios e do mercado de atuação da empresa;
- Reclamar da situação, especialmente do País, e deixar passar as oportunidades de negócio que ele oferece;
- Parar de aprender e de empreender. Mente ativa é um dos segredos da longevidade.


 

 

Fonte: www. empreendedor. com.br

 




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